No último dia 12 de maio, o Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), com apoio da Agência de Cooperação Misereor, realizou a oficina de comunicação comunitária “Narrativas comunitárias: que histórias os mapas contam?”. A atividade aconteceu na sede do Centro de Cidadania e Valorização Humana (CCVH), localizada na Comunidade Nova Canudos, dentro da ZEIS Bom Jardim, e integrou o ciclo de debates vinculado ao Mapeamento Participativo das Injustiças Socioambientais do Grande Bom Jardim.
A oficina foi facilitada pelo Quintau Coletivo, organização de assessoria técnica popular parceira do CDVHS e integrante do Observatório da ZEIS Bom Jardim, articulação da qual também faz parte o CCVH. A atividade reuniu moradores, lideranças comunitárias e participantes das ações territoriais desenvolvidas no Grande Bom Jardim em um espaço de reflexão coletiva sobre memória, representação e território, articulando práticas de comunicação comunitária e cartografia social como ferramentas de fortalecimento territorial e disputa de narrativas sobre a cidade.
Memória, território e formas de narrar a cidade
A atividade teve início com uma dinâmica de automapeamento narrativo, na qual os participantes foram convidados a descrever os caminhos até suas casas sem utilizar nomes oficiais de ruas, bairros ou referências institucionais. A proposta buscava estimular outras formas de percepção e representação do território, mobilizando memórias, afetos e experiências cotidianas construídas na convivência comunitária.
Ao longo da roda de conversa, surgiram relatos marcados por referências como árvores, poços, igrejas, trilhos de trem, feiras, pequenos comércios e brincadeiras de infância, evidenciando formas de orientação territorial construídas a partir da memória coletiva e das relações comunitárias. As falas também trouxeram reflexões sobre processos históricos de ocupação dos bairros, ausência de infraestrutura urbana, alagamentos, dificuldades de mobilidade e experiências coletivas de construção das moradias e organização comunitária ao longo do tempo.
Cartografia social e disputa de narrativas
Durante a oficina, a discussão avançou para uma reflexão crítica sobre as narrativas institucionais produzidas sobre os territórios populares. Os participantes problematizaram classificações recorrentes como “áreas de risco” ou “ocupações informais”, destacando como essas representações frequentemente invisibilizam as histórias, os vínculos e as formas de resistência existentes nas comunidades.
A atividade reforçou a compreensão da cartografia social como uma prática política de produção de conhecimento e disputa narrativa sobre o território. Nesse contexto, foi desenvolvida uma dinâmica coletiva baseada na metodologia do “mapa frente e verso”. Em um dos lados desse mapa, foram incorporadas imagens, manchetes e representações midiáticas e institucionais sobre o território. No verso, os moradores produziram suas próprias representações por meio de colagens, incorporando memórias, afetos, referências comunitárias e experiências cotidianas frequentemente ausentes dos mapas oficiais.
Comunicação comunitária e fortalecimento territorial
A oficina reafirmou a importância da comunicação comunitária como ferramenta de fortalecimento territorial, produção de memória e enfrentamento das narrativas estigmatizantes sobre as periferias urbanas.
A atividade integra o conjunto de ações desenvolvidas pelo CDVHS no âmbito do Mapeamento Participativo das Injustiças Socioambientais do Grande Bom Jardim, iniciativa voltada à construção coletiva de diagnósticos territoriais, fortalecimento comunitário e incidência política em defesa do direito à cidade e da justiça socioambiental.
