“Juventudes que falam, direitos que não se negam”: tema do 8º Festival das Juventudes estimula consciência crítica em ano eleitoral

Além do tema, datas para realização do Festival também foram definidas: jovens se encontrarão no CDVHS, no Grande Bom Jardim, em quatro sábados entre maio e junho

Matéria escrita por Raíssa Veloso- Jornalista


O 8º Festival das Juventudes já tem tema definido: “Juventudes que falam, direitos que não se negam”. Promovido pelo grupo Jovens Agentes de Paz (JAP), vinculado ao Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), a edição de 2026 do evento acontece durante quatro sábados entre maio e junho, nos turnos da manhã e da tarde, na sede do CDVHS, no Grande Bom Jardim (GBJ), em Fortaleza. O encontro reunirá cerca de 100 estudantes de seis escolas do território em torno de debates, oficinas artísticas e reflexões políticas sobre direitos humanos.

A escolha do tema resultou de um processo coletivo de planejamento que envolveu integrantes do JAP e do grupo Artes Insurgentes, vinculado ao curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). O ponto de partida foi identificar as urgências que as juventudes do território querem nomear e enfrentar.

“A gente fez uma discussão sobre quais direitos nós defendemos e não abrimos mão, o que a gente não negocia na nossa movimentação de juventudes nos territórios”, explica Ingrid Rabelo, assessora de Juventudes do CDVHS. O resultado apontou para a convivência democrática e o reconhecimento de direitos historicamente negados, como o direito à liberdade de ir e vir, à diversidade, à expressão da negritude e da identidade LGBT+, como temas centrais da edição.

Quatro sábados de percurso artístico-formativo

O Festival está estruturado em torno de quatro eixos: Ser Jovem, Ser Daz’Áreas, Ser Livre e Ser Jovem Agente de Paz. Em articulação com esses eixos, a programação inclui debates e oficinas artísticas de teatro, artesanato, música e dança, e integra formação política e expressão cultural como método principal de construção de consciência crítica e de encontro entre jovens de diferentes bairros do GBJ.

A edição de 2026 dialoga ainda com o contexto político do ano: o calendário eleitoral brasileiro entra na pauta do Festival como oportunidades para refletir sobre escolhas coletivas e representação política. “A nossa vida depende também das nossas decisões eleitorais”, afirma Ingrid Rabelo, que complementa: “A expectativa é que o Festival seja também esse espaço para dialogar sobre a importância das escolhas dos representantes para os espaços de poder”.

Pré-Festival mobiliza escolas dos seis bairros do GBJ

Antes dos dias de Festival, o JAP tem atuado nas seis escolas parceiras, cada uma localizada em um bairro do Grande Bom Jardim. A mobilização inclui apresentação do tema e realização de oficinas de produção de chaveiros criativos e de um jogo da memória sobre convivência democrática. A metodologia busca preparar as e os estudantes para o evento em maio e junho e introduzir, de forma lúdica, os acordos de convivência que tornam o encontro possível. Cada escola participará com uma representação de 15 estudantes.

A recepção nas escolas tem sido marcada por entusiasmo de quem tem diferentes níveis de conhecimento do Festival: há estudantes que participam pela primeira vez, jovens que retornam e relatam experiências anteriores, além de participantes que hoje integram grêmios estudantis, contribuindo ativamente na organização das oficinas. Essa circularidade de experiências evidencia o acúmulo político e afetivo que o Festival constrói ao longo das edições.

Maria de Fátima de Sá Gonçalves (25 anos), integrante do JAP, acompanhou as atividades nas escolas e destaca o envolvimento dos estudantes nesse processo: “Tenho percebido que eles estão bem ansiosos para entender o contexto do festival e também têm muitas dúvidas sobre como ele vai acontecer. Como são jovens do primeiro, segundo e terceiro ano, tudo isso é novidade para muitos deles”. 

Ela também chama atenção para o acolhimento e o nível de reflexão apresentado pelas turmas: “Eles foram muito receptivos, nos receberam da melhor forma. A gente ficou impressionada com o acolhimento. Além disso, demonstraram compreender bem a temática que trabalhamos sobre os direitos das mulheres”, explica. “Elas e eles disseram que não é apenas em um dia, mas algo que precisa ser vivido no cotidiano. Falaram que ajudam as mães em casa e reforçaram que o lugar da mulher é onde ela quiser”, enfatizou.

Maria de Fátima ainda destaca que esse processo está diretamente ligado à vivência das desigualdades no território: “A juventude da periferia não se cala diante das injustiças. A gente resiste, vive e insiste em lutas por direitos  que muitas vezes são  negados ou silenciados. Por isso, a juventude vai continuar falando, vai continuar se colocando e lutando por um mundo em que a periferia seja reconhecida”, completa.

Também integrante do JAP, a jovem Mayra Silva (21 anos) observa mudanças importantes na participação dos estudantes ao longo das mobilizações: “Os pré-festivais nas escolas estão sendo sempre muito legais. Hoje tem muitos alunos participativos, que interagem, brincam e fazem as oficinas. Antes, a gente via menos participação, mas agora já percebemos essa mudança”, compara. Segundo ela, o interesse pelo Festival tem crescido: “Eles participam, procuram saber como é o projeto, como funciona o JAP, justamente para poder fazer parte do Festival”.

Mayra também ressalta o papel das atividades criativas na conexão com o tema do evento. “A gente trouxe a oficina de chaveiros criativos para incentivar a criatividade dos jovens e adolescentes, fazendo relação com o tema do Festival. A ideia é que eles possam carregar esses chaveiros nas bolsas e mochilas, mas também leva as memórias e reflexões do Festival”, explica.

Para ela, o tema dialoga diretamente com a realidade das juventudes: “Tem tudo a ver com a luta pelos direitos, com não se calar diante das injustiças. É mostrar que jovem também tem voz, que quer se expressar, mas também quer viver, brincar e se divertir”.

Território como espaço de encontro e de produção de direitos

Para a assessora de Juventudes do CDVHS, o evento cumpre um papel que vai além da programação de cada edição. “O Festival significa estar junto, pensar junto, fazer junto, construir junto. E isso na periferia, sem precisar se deslocar para fora do território”, defende Ingrid Rabelo. A iniciativa busca também visibilizar a produção artística local, reconhecendo que o que muitas vezes falta às juventudes periféricas não é potência criativa, mas oportunidade e valorização.

A oitava edição reafirma a aposta do CDVHS e do JAP na articulação entre arte, cultura e formação política como caminho para que jovens de territórios periféricos possam se encontrar, nomear suas opressões e construir coletivamente caminhos de defesa de direitos humanos.

Serviço

8ª edição do Festival das Juventudes: “Juventudes que falam, direitos que não se negam”
Datas: 9 e 23 de maio e 6 e 20 de junho de 2026
Local: Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS)
Avenida Osório de Paiva, 5623, Canindezinho, Fortaleza (CE)

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