O Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) e a Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS) disponibilizam o relatório Caravana das Políticas Socioambientais do Grande Bom Jardim, publicação que sistematiza os resultados de um processo de formação, escuta comunitária e monitoramento territorial realizado em março de 2026. O documento apresenta uma análise das condições socioambientais do território e reúne recomendações para o aprimoramento das políticas públicas relacionadas às mudanças climáticas em Fortaleza. Trata-se também de uma etapa inicial do Mapeamento da Injustiça Socioambiental no Bom Jardim, que será lançado ainda neste ano de 2026.
A iniciativa integra o processo de Mapeamento Participativo da Injustiça Socioambiental do Grande Bom Jardim, que busca identificar, analisar e territorializar as desigualdades ambientais vivenciadas pelas comunidades. A Caravana dá continuidade a uma metodologia de monitoramento popular construída ao longo de mais de duas décadas no território, articulando produção de conhecimento, mobilização comunitária e incidência política.
Acesse o relatório completo: RELATÓRIO – CARAVANA DAS POLÍTICAS SOCIOAMBIENTAIS DO BOM JARDIM
Monitoramento territorial evidencia desigualdades socioambientais
Realizada em março de 2026, a Caravana foi organizada em dois momentos formativos, nos dias 10 e 24, e uma visita sociotécnica, no dia 21. As atividades reuniram discussões sobre prevenção, mitigação e adaptação às mudanças climáticas, além de uma análise da Política Municipal de Mudança do Clima de Fortaleza a partir das experiências e demandas das comunidades.
A visita de campo percorreu quatro áreas estratégicas da bacia do rio Maranguapinho: a Comunidade São Francisco, um trecho de um afluente do rio localizado na rua Carícia de Menina, a Lagoa do Marrocos e a Lagoa da Viúva. O percurso foi definido coletivamente, considerando as áreas apontadas pelas comunidades como prioritárias para o monitoramento.
A análise identificou problemas relacionados a alagamentos, precariedade do saneamento, drenagem insuficiente, descarte irregular de resíduos sólidos e degradação dos corpos hídricos. Também evidenciou diferenças na presença e na efetividade das intervenções públicas, inclusive entre áreas de uma mesma comunidade.
Na Comunidade São Francisco e em trechos próximos a afluentes do Maranguapinho, foram observadas situações de vulnerabilidade associadas à precariedade sanitária, ao acúmulo de resíduos e à exposição de moradias a riscos. Na Lagoa do Marrocos, melhorias de infraestrutura em parte da comunidade coexistem com condições críticas nas áreas próximas à margem. Já na Lagoa da Viúva, o monitoramento destacou desafios relacionados à recuperação ambiental, à manutenção do parque e à valorização dos espaços públicos nas periferias.
Os resultados apontam que a vulnerabilidade climática não pode ser compreendida apenas como consequência de eventos naturais. Ela também está relacionada a processos históricos de desigualdade socioespacial, à distribuição desigual da infraestrutura urbana e à insuficiência de políticas públicas integradas.
Justiça climática e participação popular
Um dos principais pontos discutidos no relatório é a distância entre os instrumentos previstos na Política Municipal de Mudança do Clima e as transformações percebidas pelas comunidades. Embora a legislação municipal reconheça princípios como justiça climática, participação social e priorização de populações vulnerabilizadas, persistem problemas estruturais relacionados ao saneamento, à drenagem, à habitação e à recuperação ambiental.
O documento também destaca a importância de incorporar os conhecimentos produzidos pelos moradores aos processos de planejamento e decisão. As experiências compartilhadas durante as rodas de conversa e a visita de campo demonstraram que as comunidades acumulam conhecimentos sobre as áreas de risco, os pontos de alagamento, a degradação ambiental e as necessidades de intervenção. Entretanto, esses saberes ainda encontram limitações para influenciar efetivamente as políticas públicas.
A análise relaciona as desigualdades identificadas à ocorrência de racismo ambiental, compreendido como uma expressão do racismo estrutural que contribui para a distribuição desigual dos riscos ambientais, da infraestrutura urbana e do acesso aos bens ambientais.
Relatório apresenta dez recomendações para as políticas socioambientais
A partir das evidências produzidas durante a Caravana, o relatório apresenta dez recomendações para o aprimoramento da Política Municipal de Mudança do Clima no Grande Bom Jardim. Entre as propostas estão a priorização da bacia do rio Maranguapinho e de seus afluentes nas ações climáticas; a divulgação territorializada dos resultados da Análise de Riscos e Vulnerabilidades Climáticas; a criação de mecanismos permanentes de monitoramento comunitário; e a incorporação dos diagnósticos produzidos pelas comunidades aos instrumentos de planejamento.
O documento também recomenda integrar as políticas de adaptação climática, saneamento, drenagem, habitação e recuperação ambiental; garantir o direito à permanência segura das famílias nos territórios; estabelecer metas para a recuperação dos corpos hídricos monitorados; produzir indicadores territoriais de justiça climática; e ampliar a transparência sobre os investimentos e a execução da política climática municipal.
As propostas reforçam a necessidade de respostas públicas territorializadas, contínuas e articuladas, capazes de enfrentar as desigualdades identificadas e assegurar a participação efetiva das comunidades na definição das prioridades de intervenção.
Acesse o relatório completo
A publicação da Caravana das Políticas Socioambientais do Grande Bom Jardim fortalece a produção coletiva de conhecimento sobre o território e oferece subsídios para o controle social e a incidência política em defesa dos direitos das comunidades.
Acesse o relatório completo: RELATÓRIO – CARAVANA DAS POLÍTICAS SOCIOAMBIENTAIS DO BOM JARDIM
Realização: Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS),
Parceiros: Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS); Associação dos Moradores da Comunidade do Marrocos; Quintau Coletivo; ArqPet; Instituto Avivar; Bons Jardins Urbanos; Bom Jardim em Ação; Centro Cultural Bom Jardim; Grupo Produtivo Criart; Fórum Maragoab; Observatório da ZEIS Bom Jardim.
Apoio: Misereor e Open Society






