O Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), com apoio da agência de cooperação alemã Misereor, realizou no dia 06 de março a oficina de comunicação comunitária “Escuta, memória e registro do território”, reunindo moradores, lideranças comunitárias e participantes das ações territoriais desenvolvidas no Grande Bom Jardim em um espaço de formação crítica sobre memória, comunicação e produção de narrativas sobre o território.
A atividade integrou o conjunto de ações vinculadas ao processo de construção do Mapeamento Participativo da Injustiça Socioambiental do Grande Bom Jardim e promoveu reflexões sobre história, identidade territorial e formas de registrar as experiências comunitárias.



Corpo, memória e formas de narrar a história
A oficina teve início com uma provocação sobre os significados da memória e dos espaços tradicionalmente reconhecidos como responsáveis por sua preservação. Em vez de compreender o museu apenas como uma instituição destinada a guardar objetos antigos, a atividade propôs pensar o corpo como o primeiro espaço de memória acessado pelas pessoas.
A partir dessa reflexão, os participantes construíram coletivamente a compreensão de que o corpo funciona como um arquivo vivo, no qual se inscrevem cicatrizes, gestos, afetos, formas de vestir, modos de falar e experiências compartilhadas. A discussão problematizou concepções tradicionais de patrimônio e abriu espaço para compreender a memória como prática cotidiana, vivida e territorializada.
Ao longo da roda de conversa, também foram debatidos os limites das narrativas históricas produzidas por museus e instituições oficiais. Os participantes refletiram sobre como determinados registros retiram objetos e acontecimentos de seus contextos sociais, organizando versões da história que nem sempre correspondem às experiências dos povos e comunidades que as produziram.

Território, rios e comunicação comunitária
A oficina dedicou especial atenção à formação das periferias urbanas e às experiências do Grande Bom Jardim. Os participantes destacaram que o território resulta de processos históricos de expulsão, migração e resistência, relacionados à seca, à concentração fundiária e à urbanização excludente.
Nesse contexto, ganhou centralidade a discussão sobre os rios do território e a transformação simbólica e política desses espaços em “canais”. A mudança de nomenclatura foi problematizada como parte de um processo que rompe vínculos culturais e afetivos com a natureza, evidenciando que a linguagem também constitui um campo de disputa política.
As falas de moradores trouxeram concretude ao debate, relatando dificuldades de mobilidade, ocupação de áreas vulnerabilizadas, precariedade de infraestrutura urbana e perda de espaços comunitários. Os relatos reforçaram a compreensão de que a produção do espaço urbano é atravessada por desigualdades estruturais e por processos históricos de marginalização das periferias.



Registro, futuro e construção da memória coletiva
Na segunda parte da oficina, os participantes desenvolveram uma dinâmica baseada em desenhos produzidos coletivamente, propondo um exercício de imaginação sobre como essas imagens poderiam ser interpretadas por pessoas vivendo dois mil anos no futuro.
A atividade estimulou reflexões sobre o caráter construído da memória e sobre as formas pelas quais o presente será narrado pelas gerações futuras. As falas evidenciaram tanto a valorização da natureza, da coletividade e da vida comunitária quanto preocupações relacionadas à destruição ambiental, à artificialização da vida e ao enfraquecimento dos vínculos sociais.
Comunicação comunitária e disputa da memória
A oficina reafirmou a comunicação comunitária como ferramenta estratégica de produção de memória, fortalecimento territorial e disputa de narrativas sobre a cidade e as periferias.
Ao articular escuta, reflexão crítica e imaginação coletiva, a atividade reforçou a necessidade de disputar a memória no presente, seja na forma de nomear o território, registrar experiências ou comunicar histórias e saberes populares.
Integrando o processo do Mapeamento Participativo das Injustiças Socioambientais do Grande Bom Jardim, a oficina contribui para fortalecer práticas comunitárias de organização popular e produção coletiva de conhecimento, reconhecendo a memória como campo vivo de resistência e construção política.
