O que querem as juventudes periféricas nestas eleições?

Matéria escrita por Raíssa Veloso- Jornalista

Jovens do Grande Bom Jardim oferecem respostas construídas com arte, debate e memória territorial

Foto: Raíssa Veloso

“A nossa vida depende também das nossas escolhas eleitorais”. A frase é de Ingrid Rabelo, assessora de Juventudes do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), e resume o fio que une o ano eleitoral de 2026 ao debate que envolveu 100 estudantes de escolas públicas do Grande Bom Jardim (GBJ), em Fortaleza, nas últimas semanas.

No próximo sábado (20/6), o território encerra a 8ª edição do Festival das Juventudes com o tema “Juventudes que falam, direitos que não se negam”, e as respostas que chegam do Bom Jardim sobre o que as juventudes periféricas esperam da política são mais elaboradas do que o senso comum costuma supor.

A política como disputa do cotidiano

Heitor Castro, 17 anos, integrante do Jovens Agentes de Paz (JAP), tem um diagnóstico preciso: “A política institucional não foi feita para nós que somos da periferia, do Bom Jardim. Nós precisamos chegar junto e fazer cobranças para que nossas vozes sejam ouvidas, porque senão as mesmas pessoas continuam no poder controlando a nossa vida”. Ele rebate o crescente discurso de desinteresse político entre jovens: “Se a gente não se importar, alguém vai se importar por nós. E vai ser esse alguém que vai definir quantos dias vamos trabalhar por semana, a demora do ônibus, o preço do café”, analisa.

Jô Costa, 30 anos, idealizadora do Gueto Queen e também participante do JAP, aponta os critérios que orientam suas escolhas eleitorais: “Primeiramente analisar a trajetória das pessoas que estão pleiteando esses cargos para entender o que vêm fazendo para valorizar a existência das pessoas nos recortes mais violentados: negras, de periferia, LGBTs”. Para ela, um dos desafios nesse contexto é ter acesso à informação de qualidade: “Ser bombardeado por tanta informação nos distancia do que de fato está sendo feito, quais debates estão acontecendo, quem está se candidatando”, avalia.

Festival como formação política

É nesse contexto que o Festival das Juventudes, promovido pelo CDVHS, ganha relevância que extrapola o calendário cultural. Em sua 8ª edição, o evento reúne 100 estudantes de seis escolas públicas de Ensino Médio do GBJ e coloca em cena, de forma explícita, a conexão entre participação cultural e disputa política.

O tema deste ano, construído coletivamente pelo coletivo Jovens Agentes de Paz (JAP), rede animada pelo CDVHS, em parceria com o grupo Artes Insurgentes, vinculado ao curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), partiu das pautas que as juventudes do território se recusam a negociar: direito à liberdade de ir e vir, à diversidade, à expressão da negritude e da identidade LGBT+, e à convivência democrática como base para direitos historicamente negados.

O professor João Paulo Barros, do curso de Psicologia da UFC e coordenador do Vieses – Grupo de Pesquisas e Intervenções sobre Violência, Exclusão Social e Subjetivação, acompanha o Festival desde 2018 e contesta a narrativa do jovem apático: “Ao invés de se distanciar, há juventudes nos territórios que estão promovendo modos insurgentes de fazer política que muitas vezes não são reconhecidos pelas instituições ou pelos modos mais hegemônicos de fazer política como tal”.

A professora Luciana Lobo, também da UFC e coordenadora do Laboratório de Psicologia em Subjetividade e Sociedade (Lapsus), destaca que, na articulação dos jovens, a arte tem papel fundamental na luta por direitos e nos espaços de formação democrática. “A gente chega muito para trabalhar sobre direitos, cidadania, luta antirracista, antiLBGTfóbica através da arte. O dispositivo é mapear a potência artística que já existe nos territórios”, pontua.

Oito anos de acúmulo no GBJ

Em oito anos de existência, o Festival construiu uma circularidade de experiências que evidencia seu papel formativo de longa duração: há estudantes participando pela primeira vez, jovens que retornam com memórias de edições anteriores e participantes que hoje integram grêmios estudantis e ajudam a organizar as oficinas. Para Ingrid Rabelo, o Festival cumpre um papel que vai além da programação de cada edição: “O Festival significa estar junto, pensar junto, fazer junto, construir junto. E isso na periferia, sem precisar se deslocar para fora do território”.

Em um ano eleitoral em que muito se pergunta o que os jovens querem, o Bom Jardim oferece uma resposta construída com arte, debate e memória territorial: querem direitos que não se negam, e candidaturas que estejam à altura dessa exigência.

Serviço

Encerramento da 8ª edição do Festival das Juventudes: “Juventudes que falam, direitos que não se negam”
20 de junho de 2026, de 9h às 16h
Local: Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS)
(Avenida Osório de Paiva, 5623, Canindezinho, Fortaleza-CE)

Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza

O Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) é uma organização da sociedade civil que atua há 30 anos no Grande Bom Jardim (GBJ), em Fortaleza. Tem como missão promover e defender a vida e os direitos humanos, acreditando em uma sociedade justa e inclusiva, em que cada pessoa tenha seus direitos respeitados. Trabalha para o fortalecimento da democracia, difusão de tecnologias sociais e luta por vida digna nas periferias de Fortaleza.

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