Artigo em coautoria com pesquisadores do Grande Bom Jardim sobre memórias de lideranças populares é publicado em revista científica nacional

Pesquisadoras e pesquisadores de universidades públicas e do Grande Bom Jardim assinam artigo científico publicado na primeira edição de 2026 da Mosaico – Revista de História, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Intitulado “Memórias de lideranças populares em periferias urbanas: uma experiência participativa no Grande Bom Jardim, Fortaleza, Ceará”, o texto analisa uma experiência de pesquisa biográfica e participativa na periferia da capital cearense e pode ser lido aqui.

O Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), o Ponto de Memória do Grande Bom Jardim e a Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS) são parceiros centrais do trabalho, desenvolvido entre 2019 e 2020 pelo Grupo Diálogos de Extensão e Pesquisas Interdisciplinares, vinculado à Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e à Universidade Estadual do Ceará (Uece).

“A publicação em uma revista acadêmica nacional de ótima qualidade indica a consistência, a qualidade e a relevância dos conhecimentos científicos, acadêmicos e populares-comunitários gerados através desse projeto”, avalia o professor Eduardo Machado, líder do Diálogos e coordenador da pesquisa. “Dá visibilidade ao território do Grande Bom Jardim e aos agentes da sociedade civil local que lutam por direitos”, completa.

Uma pesquisa construída de dentro do território

A investigação nasceu de uma parceria interinstitucional entre os movimentos sociais do Grande Bom Jardim (GBJ) e o Grupo de Extensão e Pesquisa Diálogos que atua de forma sistemática no território desde 2015. Aprovada em um edital da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), a investigação foi parcialmente interrompida pela pandemia do coronavírus em 2020.

O caráter participativo está inscrito desde a formulação do projeto. “O Grupo Diálogos já se inseria na dinâmica cotidiana do Ponto de Memória do Grande Bom Jardim e da Rede DLIS com ações continuadas”, explica Machado. “O artigo é assinado tanto por pessoas da universidade como por pessoas do território, porque esse conhecimento foi construído coletivamente, de modo democrático e participativo”.

São onze as autoras e os autores: Eduardo Gomes Machado (Unilab), Adriano Paulino de Almeida (Ponto de Memória do GBJ), Jean Elyson Rodrigues Borges (Uece/CDVHS), Rogério da Costa Araújo (CDVHS), Maria Valdelia Carlos Chagas de Freitas, Stefania Maria Francolino da Silva (Unilab), Ingrid Rabelo Freitas (Uece/CDVHS), Samuel de Lima Aquino (UFC), Maria Raila de Souza (Unilab), Auriane Ferreira de Sousa (Uece) e Geyse Anne Souza da Silva (Uece).

O papel do CDVHS e da Rede DLIS na pesquisa

O CDVHS está presente no artigo tanto como ator histórico quanto como parceiro institucional da investigação. Em 2009, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) convidou a entidade para integrar o Programa Pontos de Memória, resultante de uma parceria entre os programas Mais Cultura e o Programa Nacional de Segurança Pública e Cidadania (Pronasci).

A partir desse convite, o CDVHS mobilizou a Rede DLIS para construir uma instância comunitária de gestão da memória e museologia social no território. Em 2010, foi fundado o Ponto de Memória do Grande Bom Jardim, gerido por um conselho comunitário e reconhecido no artigo como “uma iniciativa territorial em memória social e museologia comunitária”.

A Rede DLIS é apresentada no texto como uma “forma associativa própria e inovadora”, fundada em 2003 a partir de um processo de planejamento participativo e de pesquisa: um conjunto de associações, lideranças e coletivos que lutam por diversas pautas dentro do território, contando, no período da pesquisa, com 27 organizações componentes.

Ela aparece também nas narrativas das lideranças entrevistadas: Ivan narra sua constituição como marco simbólico na história do GBJ; Rogério, psicólogo do CDVHS e coautor do artigo, a destaca como espaço de mediação de conflitos, construção de protagonismo político e trocas intergeracionais e inter-religiosas na relação com o Estado.

Na prática, o CDVHS foi ainda a sede de atividades centrais da pesquisa. “Várias pessoas que compõem o Centro estiveram juntas nos processos de planejamento e execução, análise e sistematização dos dados, tanto que algumas delas são coautoras do artigo”, destaca Machado. “Foi lá que realizamos as reuniões coletivas, os processos de formação de decisões e as atividades de sistematização sempre que surgia alguma questão a ser enfrentada”.

Memórias que afirmam o território como lugar de direitos

A equipe realizou sete entrevistas semiestruturadas e filmadas em locais escolhidos pelas próprias lideranças: uma decisão tomada durante a própria pesquisa, que revelou a diversidade de territórios e trajetórias de luta no GBJ. Ao trabalhar com memórias de lideranças de diferentes gerações, identidades de gênero, raça e etnia, a pesquisa busca evidenciar o que o texto chama de “complexos vivos de significações”: camadas de experiência coletiva que sustentam as lutas do movimento popular-comunitário do território.

Entre as lideranças entrevistadas estão Pai Neto, Pai de Santo na Umbanda, cuja narrativa revela a história da Granja Lisboa entrelaçada à presença dos terreiros; Lanny, jovem que liderou a ocupação da Escola Estadual Maria Alves Carioca em 2016 (a primeira escola ocupada no Ceará); e Jorge, liderança não binária que articula arte, política e direitos das comunidades LGBTQIA+ e negras por meio de coletivos como o Jovens Agentes de Paz (JAP), o Gueto Queen, a Companhia de Teatro Viv’arte e o Maracatu Nação Bom Jardim.

Os frutos da pesquisa, porém, não se encerram na publicação acadêmica. “Nós temos as entrevistas em vídeo e queremos divulgar os registros completos e também recortes selecionados nas redes sociais, disponibilizando o material tanto para as instituições e lideranças do território como para a sociedade de forma geral”, anuncia Machado. “É um passo que ainda queremos dar”.

Confira o artigo completo no site da Revista Mosaico.

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