A intensa chuva que caiu no sábado, dia 11 de abril, não foi suficiente para impedir o encontro de organizações da sociedade civil e grupos da economia solidária no Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS). Naquela manhã, foi realizada uma Mostra para marcar a abertura do curso “Quem define os Direitos Humanos? Uma Perspectiva Decolonial”, promovido pelo CDVHS por meio da Escola Popular de Educação em Direitos Humanos (EPEDH).
O encontro contou com a presença de 36 pessoas e reuniu doze entidades defensoras de direitos humanos, consolidando um espaço de articulação política e troca de saberes. Para Ana Maria de Freitas, associada ao CDVHS e voluntária da organização, “foi uma verdadeira festa”. A Mostra permitiu aprofundar o contato com organizações parceiras e aproximar quem não tinha tanto contato.
“Então foi interessante ouvi-las, saber no que estão trabalhando. Embora a gente escute no dia a dia, é muito importante ter uma escuta qualificada dessas entidades”, explicou.
Entidades e redes
Representantes da Associação para Desenvolvimento Local Co-Produzido (Adelco) apresentaram o trabalho de assessoria junto aos povos indígenas do Ceará; o Centro Socorro Abreu levou sua trajetória de organização com mulheres e o Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará (Cedeca Ceará) expôs sua missão de assessoria a crianças e adolescentes vítimas de violações. Além disso, o Instituto Terre des Hommes (TDH) destacou seu papel na promoção e defesa de direitos infanto-juvenis, com trabalho territorializado no Grande Bom Jardim (GBJ), e a Casa de Andaluzia enfatizou suas iniciativas de geração de renda para mulheres e população LGBTQIA+, combinadas com formação política para a defesa de direitos.
Economia Solidária
Participaram ainda da Mostra quatro grupos de economia solidária: Casa AME (ligada ao Movimento de Saúde Mental do GBJ), Café com Artesãs do Bom Jardim, Giro Social e Grupo Produtivo Criart, que expuseram seus artesanatos e produtos. A integração entre as entidades de defesa de direitos e os grupos da economia solidária transformou o encontro em espaço onde a geração de renda e a defesa de direitos se apresentam como dimensões complementares da garantia de vida digna no território.
A iniciativa valorizou o pilar “Direitos Humanos Econômicos” da Plataforma DHESCA, voltada também à garantia de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais. Segundo Ana Maria, “essa economia solidária é uma economia popular. Então foi muito interessante que nós tivéssemos aqui as entidades quase todas constituídas por mulheres demonstrando sua produção, suas coisas boas que sabem fazer, bolsas, roupas, brincos, colares”.
Metodologia de acolhimento
A manhã iniciou com um momento de acolhimento que incluiu uma dinâmica e a fala de Lúcia Albuquerque, coordenadora do CDVHS, enfatizando que a Mostra funcionava também como momento de fortalecimento de redes. “Foram entidades que falaram de si mesmas e também se escutavam e escutavam as outras. Essa é uma troca grande de saberes, de experiências. Estar falando para pessoas que estão querendo aprender mais sobre direitos humanos”, pontuou Ana Maria.

Cada entidade apresentou seu trabalho, sua trajetória e seus objetivos, criando espaço para que cursistas e participantes conhecessem o universo das organizações que integram a luta por direitos humanos no GBJ. O encontro foi encerrado com um caldo coletivo que ofereceu não apenas alimento, mas um momento de celebração e partilha do grupo.
Significado político
A Mostra de Direitos Humanos não foi apenas ato inaugural de um curso, mas expressão de um método político: conhecer e consolidar as redes que compõem a defesa da vida e dos direitos humanos no Ceará, capacitando novas lideranças para que se somem a essa luta contínua. “O sentimento que ficou foi de alegria, integração e troca de saberes. Em uma manhã com tanta chuva as pessoas no maior esforço para se fazer presente, para contribuir com sua fala, com sua experiência, com seu material. A sensação é muito boa de dever cumprido”, concluiu Ana Maria.
O curso “Quem define os Direitos Humanos? Uma Perspectiva Decolonial”, promovido pelo CDVHS por meio da EPEDH, propõe conhecimentos sobre as legislações que protegem mulheres, população LGBTQIA+, crianças, adolescentes e jovens, articulando a dimensão teórica com a prática do sistema de garantia de direitos. A metodologia inclui visitas às instituições que atuam na proteção desses direitos, na intencionalidade de conhecer para promover e garantir. Conta com o apoio de Misereor, instituição alemã de cooperação que apoia desde 1959, entidades que colaboram na organização de comunidades e outras instituições de territórios empobrecidos na África, Ásia e América Latina.
A formação gratuita se destina a jovens, ativistas, lideranças comunitárias, defensoras e defensores de direitos humanos e educadores do território do GBJ e acontece entre os meses de abril e junho de 2026. A iniciativa busca promover a formação de pessoas que atuam à frente de movimentos sociais e na defesa do território, fortalecendo a atuação de quem se dedica à promoção da cultura, dos direitos, da diversidade, da igualdade de gênero, da moradia digna e do respeito, a partir de uma luta coletiva pela equidade humana.
O curso adota uma abordagem histórica e crítica sobre a construção dos direitos humanos, abordando suas origens, disputas políticas e processos de consolidação. A formação pretende ampliar a compreensão sobre os significados, alcances e limites desses direitos na realidade social brasileira.


Sobre o CDVHS
O Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) é uma organização da sociedade civil que atua há mais de 30 anos no GBJ, território da periferia sudoeste de Fortaleza. Sua missão é promover e defender a vida e os direitos humanos, com foco nas periferias. O CDVHS realiza ações de formação política, educação popular, incidência e controle social através de seus projetos: Jovens Agentes de Paz (JAP), Escola Popular de Educação em Direitos Humanos (EPEDH) e participação na Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS).
