Princípios políticos e pedagógicos

Publicação 31/03/18 14:41

Há 24 anos, o CDVHS atua junto às organizações comunitárias e aos movimentos sociais e populares da região do Grande Bom Jardim, em Fortaleza, com os quais estabeleceu parcerias e, de forma compartilhada, ajudou a construir uma nova identidade social, cultural e organizacional para o citado território. Hoje, os segmentos organizados têm a consciência de que o Grande Bom Jardim é um território socialmente construído, extrapolando uma visão meramente geográfica e comprovando a eficácia da efetivação de uma visão crítica que ultrapassa o sentimento reivindicatório para atingir o conceito de exigibilidade dos direitos da pessoa humana nas negociações travadas com o poder constituído.

A experiência acumulada revela suas contribuições importantes e desafios. O CDVHS tornou-se um importante sujeito desencadeador do desenvolvimento das organizações comunitárias no território e na relação com outras áreas de periferia em Fortaleza, uma voz respeitada na denúncia de violações dos direitos humanos em seu espectro integrado e indivisível: social, econômico, social, cultural e ambiental. A entidade também se constitui numa promotora do diálogo entre as populações socialmente vulneráveis e o poder público. Por isso, a identidade do CDVHS está intimamente ligada ao “empoderamento” dos setores populares no sentido de incorporá-los ao processo de organização, mobilização e negociação das políticas que realizam os direitos humanos, ou os reparam, ou que enfrentam a violência institucional, sobretudo das populações historicamente vulneráveis, com destaque para mulheres, crianças, adolescentes e jovens no contexto da vida urbana.

RECUPERAR A AUTO-ESTIMA DOS POBRES - O CDVHS acredita que é fundamental criar oportunidades geradoras de pequenas vitórias, servindo como aprendizado e recuperação da capacidade das populações marginalizadas em gerar, com ousadia, iniciativa e competência, soluções que resultam na melhoria da qualidade de vida da população. Isso vem sendo desenvolvido ao longo da história do CDVHS, sendo reforçado neste atual ciclo, especialmente com o incentivo à realização de projetos sociais por parte das entidades comunitárias assessoradas, possibilitando o aprimoramento da competência dessas organizações, fortalecendo a credibilidade e a legitimidade delas junto aos seus públicos. Isso amplia a participação popular, imprescindível ao processo de elaboração e negociação de planos de desenvolvimento local.

NOVAS HABILIDADES E COMPETÊNCIAS - Investir no processo de ensino-aprendizagem é um enfoque estratégico do CDVHS. Isso contribui para a garantia da sustentabilidade de qualquer processo de desenvolvimento. O CDVHS investe, sistematicamente, em diferentes modalidades de produção de conhecimento, desde pesquisas de diagnóstico social a processos empíricos geradores de novos paradigmas administrativos no campo das organizações sociais, envolvendo experiências concretas de indivíduos e grupos. Exemplo disso são suas as parcerias com universidades para a realização de pesquisas e consultorias; bem como aprimoramento em seu modelo de gestão. O investimento em seminários e momentos de capacitação e o constante incentivo à especialização de seus colaboradores diretos é uma prática permanente do CDVHS.

MECANISMOS DE COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE – Para o CDVHS, a colaboração criativa é imprescindível no combate as diversas faces da pobreza extrema. O individualismo e a falta de inovação e criatividade quando unidos à pobreza e à miséria provocam o conformismo e a falta de esperanças. Por isso, o CDVHS estimula momentos de convivência comunitária e promove mecanismos que favorece a cooperação e a solidariedade em seus programas e projetos. As iniciativas, atitudes, comportamentos e valores para mudar a mentalidade individualista e competitiva são bases estratégicas para um processo de desenvolvimento centrado nas pessoas e na cidadania plena.

ACREDITAR E EMPODERAR ORGANIZAÇÕES POPULARES - Há duas décadas, o CDVHS promove o fortalecimento organizacional e político de organizações comunitárias. Nesse processo destaca-se o investimento em coesão de grupo, formação de equipes com objetivos claros e espírito de colaboração e amizade. Ao longo desse trabalho, algumas entidades ocuparam seu próprio espaço desencadeando, de forma autogestionária, iniciativas e conquistas. Sendo protagonistas da história e luta da população do Grande Bom Jardim, no bairro e na cidade.

MEMÓRIA SOCIAL DA VIDA E DA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA DO POVO POBRE – Tal qual como acreditamos e investimos nos processos de valorização da autoestima, da convivência social, da mobilização, organização e articulação dos coletivos dos jovens e de moradores da periferia, do povo pobre pobre, nós também compreendemos e valorizamos em nossas iniciativas e projetos o registro, a sistematização e a construção da visibilidade da memória de vida e luta do povo pobre. Isto como afirmação política, como afeto e identidade, como mística e reparação simbólico a importância real dessas populações na construção da vida e história de nossa sociedade.

FORMAÇÃO CRÍTICA – O CDVHS desde sua fundação tem em natureza de sua atuação o desenvolvimento de ações formação, fossem inicialmente nas formações e trocas oportunizadas pelas Comunidades Eclesiais de Base, atualizando fé e política na perspectiva da libertação do povo pobre, fossem posteriormente na gramática dos direitos, particularmente do paradigma dos direitos humanos. A formação crítica se constrói com os sujeitos em luta por direitos, em processos de superação de realidades violentas e violadoras, as alternativas de enfretamento, de reparação e de projeção da vida com dignidade. A formação crítica constrói o conhecimento conjuntamente, não oferece apenas instrumentais num viés iluminista. Aprende com os sujeitos concretos de direitos humanos e parceiros em um processo mútuo de reflexão sobre a realidade na projeção de novas realidades.

PESQUISAÇÃO E OBSERVAÇÃO CRÍTICA DA REALIDADE – A observação crítica da realidade sempre esteve ao lado dos processos de formação crítica. Aprende com as letras, com a fala e a observação dos sujeitos de direitos, como se aprende em registrando os traçados da realidade que saltam aos nossos olhos como injustos. Por isso, diversos processos de pesquisa foram desenvolvidos com os moradores e demais sujeitos de direitos com vista tanto a entender de forma crítica determinados traçados da realidade social, econômica, cultural e política ao nosso redor, para fortalecer os processos de formação e, mais ainda, de exigência qualificada de direitos.

EXIGÊNCIA DE DIREITOS – A exigência dos direitos é a exigência por uma vida digna, livre da violência, livre da opressão, livre da injustiça, livre da fome e da exclusão. A exigência de direito e sua possibilidade radical é o sentido concreto da democracia, tal qual inscrita em nosso estatuto e nos principais documentos políticos de nosso tempo histórico. O processo de percepção e da experiência de consciência de classe, de ser sujeito de direito (o sujeito social e político), construídos na luta real do dia a dia, nos processos de formação, que municiam a observação crítica da realidade, desaguam e/ou fortalecem a defesa dos direitos e seu paradigma civilizatório (diálogo, respeito às diferenças, defesa das liberdades, da justiça, da paz, da democracia), a firme exigência frente aos governos e demais poderes públicos, a defesa perante à sociedade e a própria invenção de mais direitos.